Eis o discurso proferido, hoje, pelo Papa Leão XIV no Salão Protocolar, na Nova Marginal em Luanda.
Discurso na íntegra de Leão XIV:
Entre as autoridades, membros do corpo diplomático, senhoras e senhores, é para mim motivo de grande alegria estar entre vós. Agradeço ao Senhor Presidente pelo convite para visitar Angola e pelas calorosas palavras de boas-vindas. Venho até vós como peregrino, desejoso de encontrar o vosso povo e reconhecer os sinais da presença de Deus nesta terra que Ele ama.
Antes de prosseguir, gostaria de assegurar a minha oração pelas vítimas das fortes chuvas e inundações que atingiram a província de Benguela, bem como manifestar a minha proximidade às famílias que perderam as suas casas. Sei que o povo angolano tem demonstrado uma grande corrente de solidariedade em favor dos afectados.
Desejo encontrar-vos na gratuidade e na paz, e constatar que o vosso povo possui tesouros que não se vendem nem se roubam. Entre eles, destaca-se uma alegria que nem mesmo as circunstâncias mais adversas conseguiram extinguir. É uma alegria que convive com a dor, a indignação, as desilusões e as derrotas, mas que permanece viva naqueles que mantêm o coração e a mente livres do engano da riqueza.
Com demasiada frequência, as vossas terras foram e ainda são vistas mais pelo que podem dar do que pelo que representam. É necessário romper com esta lógica que reduz a realidade e a própria vida a uma mercadoria. África constitui, para o mundo, uma reserva de alegria e esperança, virtudes que também têm uma dimensão política, pois inspiram acção, transformação e compromisso.
Vejo nos jovens, nos pobres e em tantos cidadãos a capacidade de sonhar, de esperar e de não se conformar com o que já existe. Há um desejo de preparação para assumir responsabilidades e contribuir activamente para a construção de uma sociedade melhor. Esse anseio profundo, que habita o coração humano, é uma força transformadora mais poderosa do que qualquer programa político ou cultural.
Estou entre vós ao serviço dessas forças que animam as pessoas e as comunidades. Angola é um mosaico rico e diverso. Desejo ouvir e encorajar todos aqueles que escolheram caminhos de justiça, paz, tolerância e reconciliação, bem como apelar à conversão daqueles que, por vias contrárias, dificultam o desenvolvimento harmonioso e fraterno do país.
Refiro-me também às riquezas materiais, que muitas vezes atraem interesses que provocam sofrimento, mortes e graves consequências sociais e ambientais. Esta lógica extractivista, presente em várias partes do mundo, sustenta um modelo de desenvolvimento que exclui e marginaliza, apresentando-se, ainda assim, como inevitável.
Há décadas, já se denunciava o carácter ultrapassado de uma civilização excessivamente materialista. As novas gerações esperam algo diferente. Alimentadas por sabedorias antigas, são testemunhas de que a criação é harmonia na diversidade. Sempre que essa harmonia foi violada, os povos sofreram as consequências, deixando marcas profundas.
África enfrenta o desafio urgente de superar conflitos que fragilizam o tecido social e político. A vida floresce no encontro, e o diálogo é o seu ponto de partida. O conflito não deve ser ignorado nem alimentado, mas assumido, resolvido e transformado em oportunidade de crescimento e reconciliação.
Angola pode crescer ainda mais se aqueles que exercem autoridade acreditarem na riqueza da sua diversidade. É fundamental valorizar as diferenças, escutar as aspirações dos jovens e respeitar a sabedoria dos mais velhos, transformando os conflitos em caminhos de renovação e colocando sempre o bem comum acima dos interesses particulares.
A alegria e a esperança, frequentemente vistas como sentimentos privados, são, na verdade, forças sociais poderosas. Elas contrariam a resignação e o isolamento. Pelo contrário, a tristeza e o medo podem tornar as pessoas vulneráveis à manipulação, ao fanatismo e à divisão.
A verdadeira alegria liberta e impulsiona para a vida em comunidade. Ela fortalece as relações, incentiva a participação e promove o reconhecimento da dignidade de cada pessoa. É nesse ambiente que se constrói uma sociedade mais justa e solidária.
Sem alegria não há renovação. Sem interioridade não há libertação. Sem encontro não há política. Sem o outro não há justiça. Juntos, é possível construir em Angola um projecto de esperança.
A Igreja Católica, que tem prestado relevantes serviços ao país, deseja continuar a ser um fermento positivo na sociedade, promovendo um modelo de convivência justo, livre de novas formas de escravidão impostas por interesses económicos e falsas promessas.
Só em conjunto será possível potenciar os talentos deste povo, incluindo nas periferias urbanas e nas regiões mais remotas, onde se constrói o futuro. É necessário remover os obstáculos ao desenvolvimento humano integral, com coragem e esperança.
A esperança nasce muitas vezes daqueles que foram rejeitados. É nessa lógica que se constrói um futuro sólido e inclusivo.
Que Deus abençoe Angola.
Muito obrigado.
