{"id":5328,"date":"2026-08-18T17:59:33","date_gmt":"2026-08-18T20:59:33","guid":{"rendered":"https:\/\/ajustica.net\/?p=5328"},"modified":"2026-08-18T17:59:33","modified_gmt":"2026-08-18T20:59:33","slug":"bembe-o-municipio-orfao-entregue-a-propria-sorte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ajustica.net\/index.php\/2026\/08\/18\/bembe-o-municipio-orfao-entregue-a-propria-sorte\/","title":{"rendered":"BEMBE O MUNIC\u00cdPIO \u00d3RF\u00c3O ENTREGUE \u00c0 PR\u00d3PRIA SORTE"},"content":{"rendered":"\n<p>F&nbsp;oi no s\u00e1bado, dia 8 de Agosto, que finalmente parti. Preparei a viagem com o cora\u00e7\u00e3o apertado, com aquela ansiedade boa de quem vai reencontrar algo que j\u00e1 n\u00e3o via h\u00e1 muito tempo. Ia na cabe\u00e7a a imaginar o cheiro da terra molhada, as conversas dos mais velhos \u00e0 sombra das mangueiras, a sensa\u00e7\u00e3o de finalmente pisar aquele ch\u00e3o que tamb\u00e9m \u00e9 meu, por direito de sangue e de hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas aquilo que encontrei n\u00e3o foi s\u00f3 o sossego do interior de Angola. Foi outro sil\u00eancio, mais pesado, que d\u00f3i mais. O sil\u00eancio do abandono e esquecimento. No Bembe, o tempo n\u00e3o ficou parado, o tempo andou para tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Andei por estradas que j\u00e1 nem merecem esse nome, passei por bairros e povoados onde a modernidade parece ser apenas boato de gente que passou por l\u00e1 uma vez e nunca mais voltou. E onde eu esperava sentir aquele orgulho calmo de quem regressa \u00e0s origens, o que senti foi um aperto na garganta que foi crescendo at\u00e9 virar revolta, at\u00e9 virar l\u00e1grima mesmo, sem eu conseguir segurar. Porque n\u00e3o h\u00e1 alegria que aguente quando a terra dos nossos av\u00f3s nos recebe assim, esquecida, desamparada, como se n\u00e3o fizesse parte do mesmo pa\u00eds que promete, todos os anos, desenvolvimento e igualdade para todos os seus filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esta a ideia que quero deixar bem clara neste texto, escrito n\u00e3o com a frieza de quem observa de fora, mas com a urg\u00eancia de quem sentiu na pele a dist\u00e2ncia entre o que se esperava e o que de facto encontrou. O Bembe \u00e9 hoje um munic\u00edpio \u00f3rf\u00e3o, entregue \u00e0 sua pr\u00f3pria sorte, e essa orfandade tem nome, tem causa e tem respons\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Basta atravessar o munic\u00edpio para se perceber que ali falta o b\u00e1sico, aquilo que em qualquer parte minimamente organizada j\u00e1 se d\u00e1 por garantido. Asfalto, n\u00e3o h\u00e1. As vias que ligam o Bembe aos centros mais pr\u00f3ximos s\u00e3o hoje pouco mais que trilhos de terra batida, cheios de buraco, viram lama\u00e7al na chuva e nuvem de p\u00f3 na \u00e9poca seca. Servi\u00e7os banc\u00e1rios, tamb\u00e9m n\u00e3o. Quem precisa de levantar ou depositar um dinheirinho tem de percorrer dezenas, \u00e0s vezes centenas de quil\u00f3metros, como se ter acesso ao pr\u00f3prio dinheiro fosse privil\u00e9gio de quem mora perto da cidade. Farm\u00e1cia, nem se fala. Em caso de doen\u00e7a, a dist\u00e2ncia entre a necessidade e o socorro conta-se em horas de estrada esburacada de terra batida, e por vezes at\u00e9 em vidas que se perdem nesse caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>O abandono v\u00ea-se \u00e0 luz do dia em detalhes que envergonham qualquer um: a pr\u00f3pria Administra\u00e7\u00e3o Municipal funciona num edif\u00edcio de material pr\u00e9-fabricado, como se a governa\u00e7\u00e3o da terra fosse algo provis\u00f3rio. E h\u00e1 feridas que o tempo teima em n\u00e3o sarar, como o que aconteceu com o famoso Lar dos Estudantes do in\u00edcio dos anos 80. Aquela escola em regime de internato, para onde vinham os alunos de todas as comunas do munic\u00edpio para frequentar a 5\u00aa e a 6\u00aa classes, est\u00e1 hoje reduzida aos escombros, entregue a ru\u00ednas. \u00c9 doloroso pensar que por l\u00e1 passaram tantas figuras que hoje servem o pa\u00eds nos mais variados dom\u00ednios.<\/p>\n\n\n\n<p>E h\u00e1 um pormenor que, \u00e0 primeira vista, at\u00e9 parece pequeno, mas que mostra bem a dimens\u00e3o deste esquecimento. No Bembe n\u00e3o existe uma \u00fanica hospedaria, onde um visitante possa passar a noite. Planeei a viagem com todo o cuidado, mas fui obrigado a fazer aquilo que por l\u00e1 se chama \u201cmarcha apertada\u201d: ida e volta no mesmo dia, na mesma viatura Land Cruiser, as \u00fanicas que conseguem l\u00e1 chegar, sem tempo de respirar, sem tempo de conversar com calma com os mais velhos, sem tempo de deixar que a terra me contasse as suas hist\u00f3rias como elas merecem ser contadas. Um munic\u00edpio sem lugar para dormir \u00e9 um munic\u00edpio que j\u00e1 nem espera visita, nem sequer a dos seus pr\u00f3prios filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isto \u00e9 o que eu chamo de cidadania suspensa. Porque ser cidad\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ter bilhete de identidade ou cart\u00e3o de eleitor. \u00c9 poder aceder, com dignidade, ao m\u00ednimo que sustenta uma vida humana decente. Quando esse m\u00ednimo simplesmente n\u00e3o existe, sobra \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o que continua, no papel, a pertencer ao Estado angolano, mas que na pr\u00e1tica vive \u00e0 margem dele, como se tivesse sido apagada do mapa das prioridades.<\/p>\n\n\n\n<p>E mesmo assim, e \u00e9 aqui que a revolta aperta ainda mais, o povo do Bembe n\u00e3o se entregou ao abandono. Passei por lavras onde homens e mulheres, muitos j\u00e1 de idade avan\u00e7ada, trabalham a terra com uma dedica\u00e7\u00e3o que devia envergonhar quem, nos gabinetes distantes de Luanda ou da cidade do U\u00edge, decide o destino desta gente sem nunca l\u00e1 ter posto os p\u00e9s. Vi campos de mandioca, de milho, de feij\u00e3o, banana, laranja, abacate e de tanta outra coisa, fruto de um esfor\u00e7o que come\u00e7a antes do sol nascer e s\u00f3 acaba muito depois de ele se p\u00f4r. H\u00e1, no Bembe, uma for\u00e7a de vontade que comove e que devia ser motivo de orgulho para o pa\u00eds inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas essa for\u00e7a esbarra sempre no mesmo muro, feito de indiferen\u00e7a e de vias que ningu\u00e9m consegue atravessar. Porque de que vale suar o dia todo, arrancar da terra o sustento da fam\u00edlia, se depois esse mesmo sustento fica a apodrecer na lavra por falta de estrada que leve o produto at\u00e9 ao mercado? Vi com os meus pr\u00f3prios olhos o paradoxo cruel de camponeses que produzem em fartura e que, mesmo assim, continuam pobres. N\u00e3o por falta de trabalho nem de vontade, mas porque o fruto desse trabalho fica preso, ref\u00e9m de um isolamento que ningu\u00e9m se disp\u00f5e a resolver. \u00c9 um cativeiro econ\u00f3mico cr\u00f3nico e calado. Produz-se riqueza que nunca chega a circular, que nunca vira rendimento, que nunca vira melhoria de vida para os filhos que ficam.<\/p>\n\n\n\n<p>O Bembe tem, toda a gente sabe, um potencial agr\u00edcola enorme. Terra f\u00e9rtil, clima que ajuda, gente pronta para trabalhar. E, mesmo assim, esse potencial fica por explorar, ref\u00e9m de estradas que n\u00e3o existem, de pontes que nunca se constroem, de investimento que nunca chega. H\u00e1 algo profundamente injusto nesta conta. Um territ\u00f3rio rico em recursos e em gente capaz, condenado \u00e0 pobreza n\u00e3o pela natureza, mas pela aus\u00eancia do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o quero terminar este texto como quem apenas conta uma viagem. O Bembe n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um ponto esquecido no mapa, um nome que aparece nos relat\u00f3rios e desaparece das prioridades reais. \u00c9 uma ferida aberta na dignidade regional e hist\u00f3rica de Angola, uma ferida que sangra caladinha, longe das c\u00e2maras, longe dos discursos bonitos, longe de quem tem o poder de a tratar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tempo de quebrar este sil\u00eancio institucional. \u00c9 tempo de exigir, sem rodeios e sem mais paci\u00eancia, respostas concretas. Estradas que deixem circular gente e produto. Infraestruturas de sa\u00fade e de com\u00e9rcio que garantam o m\u00ednimo de dignidade. E o reconhecimento, de uma vez por todas, de que os filhos do Bembe s\u00e3o, tanto quanto qualquer outro angolano, portadores de direitos que ningu\u00e9m lhes pode tirar. A cidadania n\u00e3o pode continuar a ser privil\u00e9gio de quem mora perto dos centros de decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A mem\u00f3ria dos nossos ancestrais, que ali viveram, trabalharam e morreram, n\u00e3o nos deixa calar. E a teimosia do povo que hoje continua a lavrar aquela terra, apesar de tudo, exige de n\u00f3s, angolanos de todos os cantos, que levantemos as nossas vozes. Porque um munic\u00edpio n\u00e3o pode continuar a ser tratado como territ\u00f3rio \u00f3rf\u00e3o enquanto tiver filhos vivos a reclamar, com toda a raz\u00e3o, o direito de pertencer verdadeiramente \u00e0 sua pr\u00f3pria Na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F&nbsp;oi no s\u00e1bado, dia 8 de Agosto, que finalmente parti. Preparei a viagem com o cora\u00e7\u00e3o apertado, com aquela ansiedade boa de quem vai reencontrar algo que j\u00e1 n\u00e3o via h\u00e1 muito tempo. 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